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Foto: Raul Arboleda/AFP

*Por Agência Conversion

Foi em 1994, quando chegou às semifinais da Copa Libertadores da América, que o Atlético Junior de Barranquilla passou a acreditar que possuía estatura para ganhar um título continental.

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Até aquele ano, o talvez maior time caribenho da América do Sul havia disputado a competição internacional apenas quatro vezes (1971, 1978, 1981 e 1984), sempre ficando na fase de grupos. Mesmo na Colômbia era considerada uma equipe de médio porte com seus três títulos nacionais, em 1977, 1980 e 1993. Neste ano, com a classificação para as quartas de final da Copa Sul-Americana sobre o Cerro Porteño (PAR), o sonho voltou a ficar mais perto: Os “tiburones” vão enfrentar o Sport na luta por uma inédita vaga nas semifinais.

“A cidade está muito esperançosa com a possibilidade do título acontecer este ano”, conta o jornalista Rafael Viscaíno, do jornal El Heraldo, de Barranquilla. “A vitória sobre o Cerro foi inesquecível. Teve ordem, intensidade, caráter, entrega, clareza, golaços e futebol bonito. Lembra aquele time de 1994”, completa.

“Aquele” time de 1994 era, na verdade, formado pelos jogadores que conquistaram o título nacional do ano anterior e que tinham sido a base da seleção colombiana que disputou a Copa do Mundo nos Estados Unidos. Entre os jogadores, estavam o goleiro José Pazo, o zagueiro Alexis Mendoza, o centroavante Ivan Valenciano (maior artilheiro da história do clube e que chegou a jogar no Gama-DF em 2001) e o mundialmente conhecido Carlos Valderrama, à época camisa 10 do Junior. O treinador era o uruguaio-colombiano Julio Comesaña – o mesmo que comanda a atual equipe.

“O sucesso do Junior foi tão grande naquela época que até a cidade passou a ser mais visitada pelos turistas, aumentando o número das vendas de passagens aéreas internas e colocando Barranquilla na rota turística colombiana.

Na Copa Libertadores de 1994, o time caribenho se classificou em terceiro lugar em um grupo com Olimpia, Cerro Porteño (PAR) e o conterrâneo Independiente Medellín. No mata-mata, passou pelo Colo-Colo (CHI) e pelo próprio Independiente, mas ficou no caminho em uma disputada semifinal contra o Vélez Sarsfield, que acabaria sendo o campeão. No primeiro jogo, em Barranquilla, o Junior venceu por 2 a 1 com dois gols de Valenciano, que também fez o único te

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Foto: Arquivo/EL TIEMPO

nto da volta, em Buenos Aires, na derrota por 2 a 1. Nos pênaltis, dois atletas do time colombiano perderam suas cobranças, enquanto apenas um do Vélez desperdiçou.

“Foi uma frustração para todos, porque era um time que jogava bonito, que tinha passado pelos adversários com autoridade e que era muito forte em casa. Havia uma expectativa muito grande sobre aquele time e que, me parece, contagiou toda a Colômbia”, conta Viscaíno. “Até hoje aquele é o time de lendas do Junior, lembrado por todos da região”, completa.

Nas outras edições da Libertadores, a equipe colombiana não repetiria o mesmo desempenho. Exceto em 1996, quando ainda chegou às quartas de final (perdeu para o América de Cali), nunca passou das oitavas nas outras sete vezes em que disputou o torneio, inclusive em 2017, em que não entrou sequer na fase de grupos. No campeonato nacional, conquistou o Clausura duas vezes (2004 e 2011) e o Apertura uma vez (2010), mas não voltou a brilhar como no início dos anos 1990 e enfrentou algumas crises financeiras durante este longo período.

“Tem muita gente acreditando que a Copa Sul-Americana deste ano é uma possibilidade real para conquistar o título que ficou entalado desde 1994”, comenta Viscaíno. Nos jornais da cidade e nas redes sociais, é fácil perceber a animação da torcida e até dos jornalistas locais, em um país cujas fronteiras provinciais e regionais têm mais rivalidades do que as brasileiras.

“Um time da costa conquistar um troféu como a Sul-Americana tem um impacto grande sobre as equipes dos vales de Cali e Antióquia e da capital. Na Colômbia, as pessoas de uma província, como é o caso da de Atlántico, onde está Barranquilla, estão em direta rivalidade com as suas vizinhas e com as cidades principais do país”, diz o jornalista Santiago Boyayan.

A atual equipe também tem seus destaques: o principal deles é o atacante Teófilo Gutiérrez, que foi titular da seleção colombiana na Copa do Mundo de 2014 com a lesão de Falcao García e que teve passagens por River Plate e Rosario Central (ARG) e Sporting (POR). Ele quase foi contratado pelo Corinthians em 2015, diante da iminente saída do peruano Paolo Guerrero ao Flamengo.

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Foto: Divulgação/Junior Barranquilla

A importância de Téo, nesse cenário de rivalidades provinciais, é maior do que apenas sua boa fase com a camisa do Junior: nascido em Barranquilla, foi no clube que ele se projetou ao mundo do futebol entre 2007 e 2009, quando marcou 42 gols em 75 jogos. Ele chegou a voltar ao time em 2012 emprestado pelo Lanús (ARG), mas não deixou saudades. Em junho deste ano, quando foi contratado pela terceira vez pelo clube, a euforia da torcida foi tanta que sua apresentação levou 45 mil pessoas ao estádio Metropolitano e gerou um acidente com três feridos: a grade que segurava os presentes caiu no momento em que ele se aproximou das arquibancadas.

Além de Téo, outros destaques do time são o atacante Yimmi Chará e o jovem meia Víctor Cantillo. O estádio Metropolitano, em Barranquilla, também é um aliado da equipe nesta competição: na segunda fase, o time venceu o grande Deportivo Cali nos pênaltis por 3 a 2 jogando em casa e, nas oitavas, passou com autoridade pelo Cerro Porteño por 3 a 1 depois de empatar em 1 a 1 em Assunção. “Não temos problemas atuando em nossa casa. Tudo se resume às emoções”, disse Gutiérrez. Na liga local, o Junior está entre as dez maiores médias de público do campeonato e, na Sul-Americana, tem levado muita gente ao estádio.