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Foto: AFP

*Por Agência Conversion

Na véspera de um jogo amistoso entre os times Sub-21 da França e da Espanha, em março de 2011, o zagueiro Raphaël Varane chamava a atenção da imprensa francesa respondendo perguntas sobre os livros de Émile Durkheim e as teorias macroeconômicas de John Keynes. Titular da seleção do seu país naquela ocasião, ele estava perto de completar 18 anos.

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Pouco mais de um ano depois – após apenas 23 partidas na Ligue 1 com o Lens, clube onde jogava desde os nove anos – o zagueiro estava assinando um contrato de seis anos e 10 milhões de euros (R$ 45,1 milhões) com o Real Madrid. Na mesma época, terminava seus estudos em Ciências Econômicas na universidade.

“Uma barganha”, disse o então técnico do Lens, Laszlo Boloni, quando Varane foi vendido. “Ele é uma joia, está aprendendo rápido porque ouve. Tem capacidade de ler o jogo muito bem e é muito inteligente. É exatamente o mesmo que Cristiano Ronaldo era no ataque quando começou comigo no Sporting, em Portugal”, completou.

Foi Zinedine Zidane, então conselheiro do presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, que ligou para Varane oferecendo o contrato. “Eu estava na casa da minha mãe em Hellemmes, perto de Lille, a 225 quilômetros de Paris”, lembrou o jogador em entrevista ao diário francês L’Equipe. “Era 7h30 e meu telefone tocou. Eu estava cansado, não queria nem responder, mas de repente reconheci a voz dele: ‘Não é uma brincadeira, sou eu mesmo’, disse Zidane do outro lado da linha. Então, lhe disse polidamente que estava ocupado revisando minhas provas e o mandei ligar de novo mais tarde. Mas quando desliguei o celular, pensei: ‘Merda'”, continuou contando.Varane ainda lembra que seu irmão mais velho o chamou de “louco” por recusar uma ligação de Zidane, mas o acordo só foi feito no dia seguinte. “Disse ‘sim’ ao Real Madrid um dia antes do meu exame final de Filosofia”, afirmou.

Na França, a imprensa o enche de elogios dentro e fora de campo: foi apelidado de “ministro da Defesa” pelas atuações e pela formação acadêmica. Frequentemente, sua carreira intelectual é colocada como uma das bases do seu sucesso no futebol. Ele, no entanto, recusa os rótulos, afirmando que há muitos atletas que se formam e jogam nas categorias de base do Real. “Sou apenas um bom e sério estudante”.

Seu primeiro técnico no Hellemmes, Christophe Debuyser, também o encheu de elogios ao diário britânico The Guardian antes da Copa da Rússia. “Aos sete anos, ele já estava trabalhando tão forte quanto qualquer outro e, mais importante, nunca enganou. Seu ambiente familiar ofereceu uma boa estrutura e uma estabilidade financeira. Graças a isso, ele nunca caiu em excessos”.

Seu pai, Gastón Varane, nasceu em Martinica, no Caribe, e foi para a França nos anos 1970 trabalhar como auxiliar de enfermagem em um hospital de Lille. Sua mãe, Annie, era professora de inglês na cidade quando conheceu Gastón. Na família, ainda há um advogado, seu irmão mais velho, e uma farmacêutica, uma das suas irmãs. Sua esposa, Camille Varane, com quem se casou em 2015, era sua namorada já no ensino médio – na França, as revistas de celebridades exaltaram o jogador pela cerimônia privada e sem luxos que selou a união naquele ano. “Nós crescemos juntos, somos muito próximos e completamos um ao outro muito bem. Tentamos manter os mesmos valores e simplicidade que fomos ensinados”, disse ao L’Equipe.

A simplicidade, aliás, é um dos traços do jogador: quando não está em Madrid ou com a seleção, frequenta os mesmos lugares de Lille que costumava ir quando era adolescente. “Chega aqui com um boné da Nike, uma camiseta comum, um tênis… se não olhar direito não dá para saber que é zagueiro da seleção francesa”, contou Denis Deliard ao jornal La Voix du Nord.

Além de Varane, os pais dos ex-jogadores franceses Thierry Henry, Nicolas Anelka, Eric Abidal, Loic Rémy, Gaël Clichy e Marvin Marveaux também eram de Martinica, uma pequena ilha caribenha que faz parte dos territórios ultramar do país europeu desde o século 17.

Quando Didier Deschamps anunciou a convocação para seu primeiro jogo à frente da seleção francesa, em agosto de 2012, contra o Uruguai, Varane estava na lista. O defensor tinha 19 anos à época, mas quando questionado sobre a pouca experiência do seu defensor, Deschamps respondeu que “talento não tem idade”.

Foi apenas no ano seguinte que ele estreou em uma partida internacional com os Bleus, na vitória contra a Geórgia, por 3 a 1, tempos antes de se tornar o jogador mais jovem a capitanear a França, na partida contra a Armênia, em outubro de 2014. Ele tinha apenas 21 anos.

“Há jogadores que nunca amadurecem até os 30 anos e outros que conseguem fazê-lo antes dos 20”, disse Deschamps naquela ocasião. De lá para cá, Varane venceu três finais de Ligas dos Campeões, em 2014, 2017 e 2018 – não jogou a final de 2016 por contusão. Foi mantido no time titular do Real Madrid por técnicos como o português José Mourinho, o italiano Carlo Ancelotti, o espanhol Rafa Benítez e pelo seu primeiro contato no clube, Zidane.

Pela França, foi vice-campeão da Eurocopa em 2016, em casa, perdendo a final para Portugal por 1 a 0. Na Copa de 2018, ele foi capitão da seleção no jogo contra a Dinamarca, ainda na fase de grupos, quando o dono da faixa, o goleiro Hugo Lloris, não esteve em campo – entrou para uma lista seleta de jogadores que reúne pouquíssimos “latino-americanos”, como Marius Trésor, que liderou os Bleus por mais de uma década entre os anos 70 e 80.

“Varane pertence a uma geração, assim como Pogba, que não tem medo de falhar. Eles procuram treinar, olhar adiante e nunca perder a compostura”, revelou Guy Stéphan, assistente-técnico da seleção francesa, ao L’Equipe, se referindo à falha do defensor no jogo contra Alemanha pelas quartas de final da Copa de 2014, no Brasil, que culminou no gol do volante Hummels – o time germânico venceu a partida por 1 a 0 e tirou a França do torneio.

Neste ano, contra a Croácia, ele poderá superar a falha de quatro anos atrás da melhor forma possível: Levantando o troféu do campeonato mais importante de futebol do mundo.