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Foto: Montagem Futebol Latino

*Por Agência Conversion

Quando se pergunta para qualquer mínimo apaixonado por futebol sobre os estádios conhecidos como “caldeirões” da América do Sul, as respostas sempre rodeiam os mesmos, como a lendária Bombonera, do Boca Juniors, em Buenos Aires, ou a brasileira Vila Belmiro, do Santos, reconhecida assim até pelos clubes do país.

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No entanto, com o crescimento de brasileiros viajando para outros destinos sul-americanos nos últimos anos – principalmente, por causa do barateamento das passagens aéreas –, outros estádios foram descobertos e, da mesma forma, temidos. A importância que a Copa Libertadores da América adquiriu nos anos 2000 para os times do Brasil também contribuiu para que outras arenas do continente fossem desbravadas, fisicamente ou no imaginário, pelos torcedores.

A maioria dos estádios escolhidos aqui já ajudou seus clubes a vencer equipes brasileiras nas edições recentes dos torneios continentais e, na maioria delas, jogadores e treinadores citaram a força de jogar em casa como um fator importante para as derrotas. Vamos à lista:

George Capwell
Emelec – Guaiaquil, Equador

Construído nos anos 1940 para ser a casa do Emelec, que já era um dos principais clubes de futebol do Equador, o estádio George Capwell passou por uma reconstrução e quatro ampliações desde o final dos anos 1980. Hoje, um dos trunfos do time contra os principais adversários, ele quase foi demolido na década de 1970 para dar lugar a um shopping.

A história de sua quase ruína começou em 1959, quando o governo equatoriano construiu o Estádio Modelo, em Guayaquil, para ser sede do Campeonato Sul-Americano da época – hoje, Copa América. Como era uma das arenas mais modernas do continente, deixou o velho George Capwell em desuso por toda a década seguinte.

Segundo o jornalista equatoriano Roberto Peña, da revista La Pizarra del DT, a venda do estádio quase foi finalizada pelo então presidente Ernesto Falcón diante de uma proposta de um banco do país em comprar o terreno para construir um centro comercial no seu lugar. No entanto, a pressão de torcedores, de jornalistas e até de movimentos sociais de Guaiaquil impediram o acerto do negócio.

Em 1989, o então presidente Nassib Neme conseguiu financiamento para sua remodelação, que se seguiu a reformas nos anos de 1999 e 2006. Dos 10 mil lugares iniciais, ele passou a poder receber até 20 mil torcedores. A posição improvisada do estádio, no entanto – mesmo problema da Bombonera, espremida em um quarteirão de La Boca, em Buenos Aires, e da Vila Belmiro, que se localiza numa região residencial de Santos –, fez com que as reformas fossem sempre limitadas.

Na Copa Libertadores de 2012, Flamengo e Corinthians enfrentaram o Emelec no estádio: Pela fase de grupos, o Rubro-Negro carioca perdeu por 3 a 2 – derrota que colaborou para a eliminação do time ainda na primeira fase da competição. À época, a imprensa brasileira criticou o George Capwell: “Quem olha a fachada tem a impressão de que chegou a um bom estádio, mas por dentro é possível ver que ele é absolutamente precário. A estrutura não é boa para times, torcedores e imprensa”, disse uma reportagem do portal Globo Esporte na ocasião.

“Atrás dos gols, a distância para o público era pequena. Nas laterais, havia um pouco mais de espaço, mas nada muito confortável. Como o alambrado é baixo, tinha uma tela que dava altura e reforça a proteção entre espectadores e atletas”, conta o jornalista Richard Souza, que cobriu aquele jogo em 2012 e escreveu a matéria. Na imprensa equatoriana, o estádio é sempre citado como uma das forças adicionais do Emelec contra qualquer equipe justamente pela proximidade da torcida, que o transforma em um calderón.

O Timão, por sua vez, enfrentou o Emelec nas oitavas de final daquele torneio, no que marcaria a estreia do goleiro Cássio como titular. O empate sem gols não reflete o que foi a partida: Uma bola na trave da equipe da casa e a expulsão do atacante Jorge Henrique ainda no início do segundo tempo. À época, o técnico Tite e o presidente Mário Gobbi salientaram a pressão do estádio como uma das dificuldades do jogo.

Em 2015, o Emelec derrubou as arquibancadas improvisadas de um dos lados do campo, que se assemelhavam aos velhos estádios ingleses, para construir ali uma arquibancada de concreto com dois andares e a mesma proximidade do campo. “Queremos que seja ainda mais caldeirão”, disse o presidente Jaime Nebot. Era parte do projeto da segunda reconstrução do estádio, que foi finalizada em 2017 com ajuda de outro banco equatoriano agora dono dos naming rights da arena. O George Capwell, hoje com capacidade para 40 mil torcedores, foi reinaugurado em fevereiro em uma partida entre Emelec e New York City, dos EUA. Nenhum time brasileiro pisou no novo estádio.

Monumental
Colo-Colo – Santiago, Chile

Quem vai a Santiago, no Chile, passa quase que obrigatoriamente pelo Estádio Víctor Jara, conhecido também como Estádio Nacional. A casa da seleção chilena no bairro de Novoa também conta parte da história recente do país por ter servido de prisão improvisada aos detidos do regime militar de Augusto Pinochet e ter sido palco das últimas aparições públicas do poeta Pablo Neruda, nos anos 1970.

No entanto, é uma unanimidade entre os jornalistas chilenos que o estádio mais intimidador do país é outro: O Estádio Monumental, no bairro de Macul, zona oeste de Santiago e propriedade do clube mais popular do Chile: o Colo-Colo.

Inaugurado em 1975, sua construção começou quase 20 anos antes para servir de sede da Copa do Mundo de 1962, realizada no país. Idealizada originalmente para abrigar 120 mil pessoas, as obras estavam a todo vapor quando um terremoto de 9,5 graus assolou o Chile em 1960 e quase fez a Fifa cancelar o Mundial. À época, 75% do estádio já estava erguido. A construção foi suspensa pelos danos que o tremor causou.

O Monumental, além do mais, foi projetado em uma área localizada abaixo do nível natural do solo, de forma que a escavação para construir o campo era uma intervenção cara aos recursos que o clube tinha. Assim, com as avarias do terremoto, o estádio deixou de receber partidas da Copa e só foi concluído em meados de 1974 com a venda do atacante Carlos Caszely, uma das lendas do futebol chileno, ao Levante, da Espanha.

Apesar de sua inauguração concluir uma triste e bonita história ao mesmo tempo, o Monumental não “pegou”. “Não iam mais do que cinco mil pessoas por jogo. A mobilização era escassa, não tinha assentos e os banheiros não eram ligados à rede de esgoto. Ficava uma fossa no estádio”, conta o jornalista chileno Jota Esquive. Um ano depois de ser inaugurado, o Colo-Colo o abandonou, retornando seus jogos para o Estádio Nacional.

Apenas em 1989, em uma campanha que mobilizou um dos canais de televisão mais vistos do Chile e até a Coca-Cola, o clube terminou o estádio e o reinaugurou em um amistoso contra o Peñarol, vencido por 2 a 1. Dois anos depois, foi instalado o sistema de iluminação, mesma época em que a diretoria do Colo-Colo começou as obras dos campos de treinamento adjacentes ao complexo.

Hoje com capacidade para receber 47 mil pessoas, o estádio reúne não apenas todas as características de um autêntico alçapão – proximidade da torcida ao campo, presença maciça da torcida, bancos de reserva encostados nas arquibancadas etc. –, mas também possui beleza: As cadeiras em preto e branco têm um efeito degradê semelhante ao do Maracanã, e uma das arquibancadas fica à frente de uma visão privilegiada dos Andes chilenos.

Os times brasileiros sofreram com a pressão do Monumental: na Copa Libertadores de 2015, o Atlético Mineiro perdeu por 2 a 0 para o Colo-Colo na fase de grupos. No ano seguinte, os dois times caíram novamente na mesma chave e, de novo, o Galo não conseguiu vencer: Um empate sem gols que foi comemorado pelo então técnico Diego Aguirre.

Gigante de Arroyito
Rosario Central – Rosario, Argentina

Um dos maiores e mais antigos estádios da Argentina, o Gigante de Arroyito, em Rosario, dificilmente aparece nas listas dos caldeirões sul-americanos. No entanto, o futebol argentino o reconhece como um dos campos mais temidos do país e, não à toa, o então técnico da seleção, Diego Armando Maradona, pediu à Fifa para jogar nele contra o Brasil, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo da África do Sul.

“Eu gostava de jogar com as pessoas muito perto porque você escuta tudo. Nós temos a vantagem de ter tudo a nosso favor. O campo do Rosario Central é ideal para colocar o Brasil na roda, para que a torcida apoie a seleção”, disse à época.

O Gigante de Arroyito foi o terceiro estádio do Rosario Central em sua história. Antes, a equipe jogava em canchas pequenas, como a Villa Sanguinetti e a Parada Castellanos, todas ligadas à origem ferroviária do time. Ao contrário dos outros clubes desta lista, o Rosário jogava e construía o estádio ao mesmo tempo, de forma que falar qualquer data de sua inauguração é impreciso.

O maior impulso para a modernização do estádio foi dado em 1974, quando a Argentina foi nomeada sede da Copa do Mundo de 1978. À época, o Rosario disputou com seu arquirrival, o Newell’s Old Boys, o direito de receber partidas do Mundial, e o venceu em meio a um jogo misterioso de influências políticas.

Dois anos depois, quando o general Jorge Videla aplicou um golpe de Estado militar e assumiu o poder do país, o Estado se encarregou de reformar todas as sedes do Mundial. O Arroyito foi um dos mais beneficiados, apesar das denúncias de corrupção que percorreram toda a história daquela Copa.

De qualquer forma, foi em 1978 que a casa do Rosario Central chegou à sua capacidade atual, de quase 42 mil lugares – a maioria deles em pé. O estádio possui quatro gigantescas tribunas populares atrás dos gols que reúnem quase metade da torcida quando o Arroyito lota.

O Atlético Mineiro é o time que mais sofreu com a pressão das arquibancadas da torcida rosarina: Na segunda partida da final da Copa Conmebol de 1995, o Rosario reverteu uma derrota de 4 a 0 no primeiro jogo e levou a decisão do torneio para os pênaltis, em que se sagrou campeão. Segundo o jornalista argentino Diego Castilla, autor do livro Hazañas y vuelcos espetacturales, é até hoje a única “remontada” por quatro gols da história do futebol mundial.

O último time brasileiro a sofrer com o Rosario em seu estádio foi o Grêmio, eliminado da Copa Libertadores do ano passado com uma sonora goleada de 3 a 0 no jogo de volta, com dois gols do artilheiro Marco Rubén.

“A atmosfera do estádio é absolutamente incrível. E o mais interessante é notar que isso se dá em qualquer jogo disputado pelos ‘canallas’, não só nos clássicos contra o arquirrival Newell’s Old Boys. Ainda assim, é importante dizer que isso é algo costumeiro nas pelejas disputadas por vários outros clubes argentinos, mas a proximidade da torcida do Central com o gramado faz com que a pressão nos jogadores adversários seja brutal”, finaliza o jornalista Santiago Boyayan.